sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A última pincelada

"Viveu em tempos um pintor que nunca conseguia acabar de pintar uma ave, fosse ela uma cegonha ou uma garça. Quando se preparava para dar a última pincelada, ela levantava voo.
E o pintor ficava muito tempo ainda a persegui-la com o pincel no céu azul..."

Jorge de Sousa Braga 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Malangatana


Vítima de doença prolongada, Malangatana morreu há poucas horas no hospital de Matosinhos onde fora internado há dias. De seu nome completo Malangatana Ngwenya Valente, Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, o pintor moçambicano era uma lenda do milieu artístico desde a mostra colectiva que o Núcleo de Arte de Lourenço Marques organizou em 1959. A consagração chegou em 1961, com a primeira individual. No ano de todos os rumores (a guerra colonial tinha eclodido na outra costa), a policromia violenta da obra provocou indisfarçável embaraço na cidade branca. Representado desde os anos 1970 no National Museum of African Art de Washington, bem como noutras colecções internacionais, Malangatana também escreveu poesia.


A biografia do jovem de Matalana que conseguiu ir trabalhar como apanha-bolas para o Clube de Ténis de Lourenço Marques, passando a empregado doméstico do arquitecto Pancho Miranda Guedes, e depois para o próprio Núcleo de Arte, está recheada de episódios curiosos: em 1963 tornou-se colaborador da revista Black Orpheus, a Pide manteve-o preso durante dois anos, a Frelimo fez dele deputado (1990-94), poemas seus integram a antologia Modern Poetry from Africa, viveu em Portugal enquanto foi bolseiro da Gulbenkian, o fotógrafo britânico Duncan Campbell dedicou-lhe em 2005 um extenso portfolio no Guardian de Londres, a Universidade Eduardo Mondlane encomendou-lhe o mural do Centro de Estudos Africanos, por proposta daUNESCO recebeu o Prémio Prince Claus, a Universidade de Évora fez dele doutor honoris causa, há menos de um ano foi uma das personalidades mais acarinhadas das Correntes de Escritas, etc.


(retirado do blogue Literatura de Eduardo Pitta)
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Entre nós houve quem tivesse tido o privilégio de confraternizar com o artista. Seria interessante a partilha desses momentos, únicos e inesquecíveis. O desafio está lançado.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Com os votos de um rápido restabelecimento, dedico ao nosso Colega e Amigo Rui o poema que segue.

Sátira aos homens quando estão com gripe, de António Lobo Antunes

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas,. creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Se eu fosse pintor...

Se eu fosse pintor pintava
De verde, verde e cinzento,
O ventre da onda brava
E os olhos cegos do vento
Só com essas duas cores
Talvez que a tinta ocultasse
Meu prazer, as minhas dores...
Tudo que me lês na face!
E, sob o feltro dos dedos
Poisando nas tuas ancas,
As ondas dos teus cabelos
De loiras ficavam brancas.
Nem sequer falas de gente!
Nem alegria nem mágoa.
Ou luar ou sol poente.
Corpo de cristal com água...
Em vez de carne, cerejas.
Legumes, em vez de peixe,
Antes que os meus lábios vejas
E, presos, um beijo os deixe.
Quem se lembraria então
Do poeta (ou do pecado)
Atirado para o chão
Como um fósforo apagado?


Pedro Homem de Mello

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

"O Povo e o Monumento" - Aguarelas de Artur Franco

COREPINCELADAS esteve presente na inauguração desta mostra mas, para quem não tiver possibilidade de visitar a exposição de aguarelas deste artista leiriense, aqui poderá visualisar e apreciar a qualidade dos trabalhos expostos.
(VER AQUI)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Telas da Exposição do IPJ - 2010


Já podem ser vistos aqui (na margem direita deste blog) os trabalhos do nosso grupo que estiveram expostos no IPJ até ao pretérito dia 23 de Novembro.

Exposição de Aguarelas

Sob o tema «O Povo e o Monumento», foi ontem inaugurada, na Galeria de Exposições Mouzinho de Albuquerque, na Batalha, uma exposição de aguarelas do consagrado artista plástico leiriense, Artur Franco.


A mostra ficará patente até ao dia 19 de Dezembro, podendo ser visitada diariamente das 14:00 às 18:00 horas.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Que mais podia eu querer?


Através do Livro de Honra da nossa exposição (de que publicamos aqui uma página), os visitantes e alguns daqueles que expuseram, manifestaram, por escrito, o seu agrado pelos trabalhos ali dados a conhecer.
Entre outras apreciações, da referida página permitimo-nos respigar esta:

Que mais podia eu querer?
Se os olhos se derretem na magia da cor
e as palavras se misturam na tertúlia dos amigos
que me viram fazer os primeiros borrões...
Afinal, quero mais
Gratidão e carinho em especial à nossa mentora
que nos estimula e orienta
Permaneço!

Graciela Neves

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Saltaricando de tela em terra (Graciela Neves)

Saltaricando de tela em terra

Num dia de Outono, quase ao Anoitecer
Inaugurou-se a exposição,
Como se fosse hoje a Casa dos Pintores

Na abertura, um bálsamo suave
no louvor incitante da artista, mentora e amiga Dulce Bernardes
de mãos exímias, pincelada decidida, sagaz mirada
nos poemas que o colega declamou
tanto quanto o violinista encantou,
em pano de fundo,  A Flautista sem rumor nem zumbido,
surpreendeu pelo mutismo, o que não é habitualmente na Margarida.
……
e se a passarada debandava?

Máscaras fora de cena,
ausente o actor principal,
Carlos, vamos começar
…..
desnude-se o artesão
mostre-se a arte, sem pruridos nem subterfúgios
que a corrompam

A diversidade de Contrastes
(não só Cópia como as minhas), há o jeito, o toque e o gesto singular
a exemplo, o que o Luís recriou e tantos tantos outros ….
o abstracto, o figurativo, o realista

Uma, duas, três ….. sete Paisagens
Com alfazema e outros tons, cheiros quanto baste
Cremilde transferiu da paleta, surto de aragem tonificante
mancha florida à beira rio, amena quietação
que a Lurdes elegeu para se reconstruir e alentar
Flor, Flores Frutas
Limão verdeMaçãs matizadasMorango e Moranguito
sabores apetecidos …doce e acre Alice no país das suas maravilhas
amores e amantes sem título nO luar
Num só em Um envolvimento que a Nathalie concede
aos gatos, aos humanos, a cada um de nós, serenamente,
sem sombra de Nuvem passageira, no semblante
ou na alma desertora do Rui de ruim visão, daltónica, quanto sei
dentro ou fora, Na tua ou na minha sala,
já não espero nem desespero… apenas me apetece morder com raiva, Céline!
para brevemente ficar pronta para O Renascer
e poder aspirar sem temor, mágoa e contrição
a proposta de brandura da Mª Ascenso,
em alternativa com a azul cidade gémea

Retrato de família, repetida a infância,
avô F. Patrício, em azáfama cooperativa,
um bom mote para o poema, o desejo, o sonho
os locais que nos rodeiam, as memórias, os ícones e a lonjura
Antes de sair da Casa dos Pintores, ou passar pelo Cruzeiro,
que sustenta a base do S, Rocha e o norteia no desnorte, revimos
O Fontanário da Fonte Freire, graciosa reprodução em delicadeza
arrebatada pela fulgor dos cântaros, o espírito judicioso,
o cavalheirismo deferente do Henrique,
Praça Rodrigues Lobo e Castelo,
St Agostinho e Sra Encarnação, a Ford Leiria anos 50
uma Leiria Panorâmica desde o Bairro dos Anjos
…..
Descansámos na Casa de campo, local idílico
que a Helena alindou para nos ofertar  genuinamente
enquanto o Visconde e freguesia franqueavam o Pórtico do Solar,
Foi de Óbidos, Pormenor com janela típica e muralha, que avistámos o Alentejo
La onde a conciliação se torna autêntica, após a luta renhida
gerações, risco, aventura, idealismo …
uma mãe só sossega quando o filho adormece no seu colo

Voando ou Velejando, nem sei bem
ancorados  e escorados viajaremos de qualquer modo
capitaneados pela Odete, com sensatez e tolerância
Barcos ao largoBarcos com rumo
nO meu marbarcos esmaecidos,
baloiçados no rumorejo das vagas,
sortilégio no langor do violino
e no olhar enlevado da Sílvia, mãe babada
rumámos ao Funchal, a ver o Fontanário da Rua das Cruzes,
de azul real, pedraria ao pormenor, a clorofila a transparecer
a mão do Arnaldo a transmutar cada recanto em monumento
esticámo-nos aos Açores
fruímos a Vista aérea das Ilhas das Flores
não descemos,
espreitámos o Pico, a Madalena,
do lado do Faial, sobrevoando em contemplação

Estes míseros (de crise tão badalada) filhos de Adão e Eva
ilusão até aqui Eternamente adiada,
afagaram indelevelmente
numa Mística, fascinante
a África feiticeira
Escrava e rainha
esta África minha
……
uma passada asiática em forma de mulher transtornada
uma rainha, talvez Isabel, de anseio e agitação adornada
……
Descendo a pique, num contexto, quiçá, bucólico
Passeando à chuva, quais Cavalos azuis entontecidos sem nada descortinar,
pedimos a Sto António uma aberta, embora se saiba que esses domínios não são seus….
finalmente, com a ajuda das criaturas animadas que o acompanham,
num lugar Celeste, conseguimos um passe de feitiçaria….
abriu-se a torneira da borrasca
para vazar em cascata ampla, em cascata minguada ….
nem Guerra, nem alvoroço…. pausa
Lagoa mansa …
e nesta placidez
ecoaram trinados de uma centena de pássaros
anunciados, quase corpóreos,
Cuco, o Gaio e o Borralho
as Perdizes, a Alvéola branca, a Trepadeira azul
Rabirruivo, o Pisco de-peito-ruivo, o Melro
Pardal-montês, Pintassilgo, o Cartaxo-nortenho
Chapim azul, o Pica-pau malhado, Toutinegra,
…. tantos e tantos hão-de chegar em revoada

Etiquetados cientificamente
latim, que o meu latim não alcança
confusa, atabalhoada, desmemoriada ….
solicito, urgentemente, um ornitólogo simultaneamente cozinheiro,
pode mesmo ser “o homem dos sete instrumentos”
para ajudar à classificação do passaredo
….
enquanto se estuda tal arte
Miguel ensina a preparar um foie gras de “Streptopelia turtur”,
um vol au vent de “Troglodytes troglodytes
….
Saciada, poderei descansar na planície,
repousar na alameda e certamente mergulhar na baía do Tirreno

Cores e letras, duplamente encantatório

Um final feliz, Hema
para as decepadas, as confusas, as envergonhadas…. psiu, não se pode tocar em mazelas!
os fugitivos, os alquimistas, os arrependidos…. para todos nós
recriação, ressurgimento e reciclagem

Divirtam-se como eu me diverti!


Graciela Neves

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Inauguração da Exposição no IPJ

Tal como programado, decorreu ontem, pelas 18:00 horas, nas instalações do IPJ de Leiria, a inauguração da nossa exposição. Usando da palavra, a professora Dulce Bernardes, teceu elogios às obras em exposição, realçando a «qualidade dos artistas que tem a honra de orientar».
De seguida, o colega Fernando Patrício, com a qualidade a que, nas aulas de pintura, já nos habituou, declamou dois belos poemas (de José Régio e de Fernando Pessoa) para agrado de todos os presentes.
Por fim, foi-nos oferecida, pelo José Miguel (filho da colega Sílvia),uma interessante peça musical que executou no seu violino.
A exposição irá estar patente ao público até ao próximo dia 23 do corrente mês de Novembro, das 9:00 às 20:00 horas (sem fecho para almoço), excepto aos sábados e domingos.